A opção de transliterar a palavra batismo nas Escrituras Sagradas em português, ao invés de traduzi-la diretamente, é um dos aspectos mais notórios e controversos do âmbito da teologia bíblica, com reflexos práticos, doutrinários e históricos. Originalmente o termo grego βαπτιζω (baptizo) expressa sem rodeios, imersão, mergulho ou submersão, sendo empregado tanto em contextos cotidianos quanto religiosos para descrever ações que envolviam o ato de afundar completamente algo na água. Ao ser transliterada para o português como batismo, essa forte ligação direta foi atenuada, e a palavra passou a englobar práticas diversas como aspersão, efusão e a própria imersão a depender da tradição denominacional.
Essa escolha de transliteração em vez de tradução não ocorreu por acaso nem foi puramente técnica, mas intencional. Em épocas históricas marcadas por forte tensão entre as diversas correntes do cristianismo, em especial durante a Reforma Protestante, optar pela tradução literal como imersão, poderia equivaler a tomar partido teológico, algo que os tradutores evitaram para impedir o surgimento de divisões ainda maiores. Assim, batismo tornou-se um termo com ambiguidade e funcionalidade propositais aceito tanto por católicos quanto por protestantes de diferentes vertentes, permitindo que cada grupo o interpretasse conforme sua doutrina sem que o texto bíblico em si fornecesse uma prática em detrimento de outra. Entretanto, essa decisão gerou e ainda gera desafios hermenêuticos. Ao empregar uma palavra transliterada (excetuando os casos de nomes próprios, pois acredito que deveriam ser mantidos), o texto bíblico perde a nitidez do seu significado original e imediato.
O leitor comum ao deparar-se com o termo batismo não é espontaneamente levado a entender que se trata de imersão, mas sim de um rito religioso cuja forma pode variar. Isso abriu as portas para interpretações subjetivas e para o abandono da parte prática originalmente descrita nas Escrituras. Essa situação é especialmente delicada para grupos como os Batistas que consideram a imersão com uma única forma biblicamente legítima de batismo. A crítica, portanto, reside no fato de que a transliteração escureceu o sentido objetivo da palavra grega e favoreceu uma tradição teológica pluralista, mas muitas vezes distante do texto original. Traduzir batismo como imersão teria sido uma maneira de preservar a fidelidade linguística e teológica ao Novo Testamento. A decisão de transliterar em vez de traduzir é compreensível sobre a perspectiva histórica e política mas precisa ser reavaliada teologicamente sobretudo por aqueles comprometidos com a exegese literal das Escrituras. Afinal, a escolha das palavras na tradução da Bíblia não é isenta. Ela influencia a doutrina e a prática da fé cristã.