Vou entrar direto na raiz da questão: os versículos de Marcos 16.9-20 constam nos manuscritos gregos existentes, e, assim constando, são texto inspirado por Deus?
Sempre se soube quais eram as famílias de manuscritos gregos do Novo Testamento, e isso até o século XVI e início do XVII. Não se discutia esse assunto, pois os textos sempre se apresentaram. Mas com o advento do iluminismo, promovendo o racionalismo e o pensamento crítico, muitos estudiosos começaram a examinar a bíblia como um documento puramente histórico, sujeito às mesmas análises de qualquer outro texto antigo. Nomes como Bento Espinosa, Richard Simon, e Johann Salomo Selmer foram alguns dos responsáveis pela forma de analisar as Escrituras. E foi bebendo desta fonte e dos avanços da Crítica Textual no século XVIII, que dois homens, Westcott e Hort publicaram em 1881 o The New Testament in the Original Greek (O Novo Testamento no Grego Original).
Mas você pode estar se perguntando: por que uma nova publicação do texto grego do Novo Testamento se já se tinha esse texto desde sempre?
E é aí que tudo muda! Esses homens não se valeram da grande e esmagadora gama de manuscritos existentes e reconhecidos como derivados dos manuscritos originais, ou seja, a família bizantina, e sim de dois dos manuscritos mais famosos e queridos pela comunidade da Crítica Textual até hoje: o Codex Vaticanus e Codex Sinaiticus.
Desconsiderando completamente a família bizantina, e indo mais além, atacando-a, Westcott e Hort basearam seu texto grego nos dois códices citados, apresentando como argumento primeiro, a antiguidade desses códices, associando antiguidade à qualidade, ou seja, se são mais antigos, são melhores e de maior confiança. E realmente são bem antigos, datados do século IV. Mas você há de concordar comigo que esse tipo de argumento é subjetivo. A antiguidade de um manuscrito é um fato verificável e a paleografia está aí para isso. Portanto, afirmar que é antigo, é uma afirmação objetiva. Mas, ser melhor por ser antigo, é um pensamento subjetivo. Para citar o dr. Wilbur Pickring, “Satanás tem pelo menos 6.000 anos, e nem por isso é bom”. E foi assim que surgiu o principal modelo de texto crítico do NT. Hoje esse texto crítico ou também conhecido por texto eclético é representado pelo Nestle-Aland 28ª Edição, como também o “Greek New Testament da United Bible Societies”, mas que mantém a linhagem do texto de Westcott e Hort.
É baseando-se na confiança que muitos atribuem ao texto crítico, que se afirma que o final longo de Marcos não consta nos “melhores” manuscritos gregos, ou dito de outra forma: os manuscritos mais antigos não trazem o final de Marcos.
A afirmação do autor desse texto é a seguinte: sim, o texto consta nos manuscritos gregos e são Palavra de Deus pura e genuína, sem sombra de dúvidas. Precisamente 99,8% dos manuscritos trazem o texto, contra 0,2% que o omitem. Justamente os dois códices: Vaticanus e Sinaiticus.
A argumentação geral para a escolha desses dois manuscritos como base para as traduções modernas gira em torno de sua antiguidade e nada mais, pois se os críticos textuais tentarem argumentar baseados em evidências, o argumento desmorona. Sem esgotar as informações e apresentando somente algumas, o Codex Sinaiticus, descoberto por Tischendorf em 1844 no Mosteiro de Santa Catarina, no Monte Sinai, estava para ser queimado, o que não parece ser uma ação que demonstre muito apreço pelo material. Já o Codex Vaticanus, que recebe esse nome porque foi encontrado/catalogado pela primeira vez em 1475 na Biblioteca do Vaticano, já é um problema, já que não creio de forma alguma que o Senhor meu Deus deixaria sua palavra registrada em um manuscrito e guardado dentro da igreja católica por séculos.
Essas são apenas informações simples para que você pense a respeito, mas é com as obras de John Wiliam Burgon e Herman Charles Hoskier, que os argumentos contra o texto crítico que omite o final de Marcos se apresentam fortemente. Burgon em seu livro The Revision Revised (A Revisão Revisada) argumenta que Westcott e Hort cometeram um erro grave ao rejeitar a maioria dos manuscritos existentes para confiar quase exclusivamente no Codex Vaticanus e no Codex Sinaiticus. Ele defende que a antiguidade desses dois manuscritos não é sinônimo de pureza. Pelo contrário, Burgon afirma que eles sobreviveram justamente porque foram considerados defeituosos e abandonados pela igreja primitiva, estando repletos de omissões, adições e erros grotescos de copistas.
Já em seu livro, Codex B and Its Allies (Códice B[1] e seus aliados) (volumes 1 e 2) Hoskier argumenta que esse texto não é puro, mas sim uma mistura (um texto “híbrido”) que sofreu fortes influências de outras versões primitivas, como as traduções para o siríaco e o latim antigo.
Hoskier cataloga mais de 3.000 contradições diretas entre o Vaticanus e o Sinaiticus apenas nos quatro Evangelhos. A conclusão lógica de Hoskier é implacável: se os dois “melhores” manuscritos discordam um do outro milhares de vezes, não faz sentido que a crítica textual moderna os utilize como o padrão ouro para corrigir os outros milhares de manuscritos existentes.
Isso é fácil de verificar e você pode agora fazer um teste em um único exemplo de sua Bíblia: Leia Mateus 4:23 em comparação com Lucas 4:44. Se em sua Bíblia consta que o Senhor Jesus percorria toda a região da Galileia, mas em Lucas 4:44 Ele estava na Judéia, sua Bíblia se contradiz e você tem em mãos o texto crítico. Abandone imediatamente esse texto! Lembre-se, foram encontradas mais de 3.000 contradições entre o Codex Sinaiticus e Vaticanus. Somente nos Evangelhos. Fica difícil realmente defender inspiração, inerrância e preservação desse jeito. Mas se você utilizar o texto que Deus preservou, tudo se resolve.
O texto de Marcos 16:9-20 consta em todas as bíblias em português, mas se atente para aquelas que marcam esse trecho em específico com colchetes ([ ]), indicando que não constam nos originais. A Bíblia Shedd, em seu comentário de rodapé acerca desse texto diz que “este trecho não consta em alguns dos melhores manuscritos da antiguidade. Há, também, indicações de que não foi escrito por Marcos. Se Marcos não foi o autor, não se sabe quem teria composto estes versículos[2]”. Mas já apresentei a porcentagem de amostragem desse texto: 99,8% dos manuscritos trazem o final de Marcos completo. Então a pergunta é: quem usa a expressão “este trecho não consta em alguns dos melhores manuscritos da antiguidade” se referindo a 0,2 %? Isso tem um nome: desonestidade[3]. Não são poucos os pastores e professores de Seminários Teológicos que afirmam a omissão do final de Marcos. Esse desserviço só serve para nos alertar e ensinar nossas igrejas locais a confiarem na Palavra de Deus como Ele nos entregou e preservou.
[1] Códice B é o Codex Vaticanus.
[2] O que uma nota como essa produz na cabeça de um crente sobre a veracidade das Escrituras?
[3] Não julgo o pastor Russel Shedd. Pode não ser de sua autoria as notas de rodapé, mas como a Bíblia leva o seu nome, recai sobre ele a responsabilidade de uma nota tão perniciosa.