Vivemos em tempos onde a solidez das instituições, das relações e das crenças parece ter se desfeito no ar. O sociólogo polonês Zygmunt Bauman cunhou o termo “Modernidade Líquida” para descrever este zeitgeist: uma era marcada pela transitoriedade, pela incerteza e pela incapacidade das formas manterem a sua estrutura por muito tempo. Inevitavelmente, essa fluidez cultural permeou as fronteiras da igreja e atingiu o coração da academia teológica.
Historicamente, a teologia outrora a “Rainha das Ciências”, operava no terreno do absoluto. Os dogmas eram as catedrais de pensamento: estruturas sólidas, visíveis e permanentes, construídas sobre a rocha da revelação bíblica e da tradição apostólica. Havia uma epistemologia da certeza.
No entanto, a teologia moderna, influenciada pelo pós-estruturalismo, pelo pluralismo cultural e pelo pragmatismo, começou a assumir a forma do recipiente em que é depositada. Esta é a característica primária dos líquidos: eles não fixam o espaço, eles o ocupam momentaneamente.
Na prática, observamos uma teologia que primeiro, prioriza a subjetividade sobre a verdade proposicional: A experiência individual, ou seja, o que eu sinto, torna-se o árbitro final da verdade, em detrimento do texto sagrado: Assim diz o Senhor. Segundo, fragmenta a grande história da Redenção que é substituída por micronarrativas locais e contextuais, onde cada grupo teológico reivindica a sua própria “verdade”, rejeitando universais.
Essa liquidez gerou um fenômeno preocupante: a mercantilização da doutrina. Se não há contornos definidos, a teologia torna-se um produto customizável. O fiel moderno não busca mais conformar-se a uma verdade externa que o desafia; ele busca uma teologia que se adapte ao seu estilo de vida, às suas preferências políticas e ao seu conforto emocional.
O perigo, como alertou o teólogo James Orr em seus embates com o modernismo de sua época, é que ao tentarmos tornar o Cristianismo palatável para a “era líquida”, acabamos por diluí-lo até que perca sua essência. Uma teologia líquida corre o risco de escorrer pelas mãos, incapaz de saciar a sede profunda da alma humana por algo eterno e imutável.
Reconhecer a liquidez da teologia moderna é necessário. Mas não para que teólogos, pastores e pensadores cristãos contemporâneos dialoguem com a cultura fluida e sejam dissolvidos por ela. Pelo contrário! A firmeza doutrinária precisa ser novamente reafirmada.
Precisamos redescobrir o que é sólido na fé cristã. Em um mundo onde tudo muda e se transforma com velocidade vertiginosa, a teologia deve oferecer não apenas um espelho da sociedade, mas uma âncora. Afinal, a relevância da igreja não está em o quanto ela se parece com o mundo moderno, mas em o quanto ela oferece aquilo que o mundo moderno não consegue produzir: esperança firme e fundamentos inabaláveis.
O teólogo escocês James Orr escreveu quase que em tom profético, já em seus dias:
“Todos devem estar cientes de que há nos dias de hoje um grande preconceito contra doutrina ou, como é muitas vezes chamada ‘dogma’ – na religião; uma grande desconfiança e aversão ao pensamento claro e sistemático a respeito de coisas divinas. Os homens preferem, não se pode deixar de notar, viver em uma região de nebulosidade e indefinição com relação a esses assuntos. Querem que seu pensamento seja fluido e indefinido – algo que possa ser mudado com os tempos, e com as novas luzes que eles acham estarem constantemente aparecendo para iluminá-los, continuamente adquirindo novas formas e deixando o que é velho para trás”.